Identidade

QUERO SER CURIOSA PARA SEMPRE

Manu Gavassi criou um legado que começou com a CAPRICHO. Ela revisita sua história em um mood lúdico e cheio de curiosidade.

por Anny Caroline Guerrera Atualizado em 24 jul 2026, 19h06 - Publicado em 23 jul 2026 19h00
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la estava prestes a começar a desobedecer”, reflete Manu Gavassi sobre sua versão adolescente que entrou na Galera CAPRICHO, lá em 2009. Anos mais tarde, aquela jovem cheia de sonhos admira a construção de um legado artístico guiado por histórias verdadeiras e por uma coragem que a fez desbravar caminhos criativos com a convicção de que nasceu para viver essa jornada. Para ela, não existia rota alternativa, a única escolha era se jogar.

Foram anos de acertos e tropeços para a diretora, roteirista, compositora, cantora e atriz, que teve que aprender a desacelerar em um mercado que pede velocidade o tempo todo. Foi entre o caos da indústria e da própria vida, que Manu deu um passo para trás e entendeu que viver seu eu mais autêntico representava a liberdade que tanto buscou. Agora, em um momento mais leve, ela celebra uma carreira que a leva por direções que aguçam cada vez mais seu lado curioso e criativo. E a melhor forma de fazer isso é voltar para onde tudo começou. Ou seja, voltar à CAPRICHO.

galera capricho

Mas, antes de continuarmos, uma pausa para te explicar: Galera CAPRICHO, que a Manu participou lá em 2009 e mudou o rumo de tudo, é o grupo oficial de jovens leitores e criadores de conteúdo selecionados pela nossa redação para representar a marca durante um ano. Eles são consultores, aprendizes de jornalista, e remotamente apoiam a redação em textos, vídeos e muito mais.

Quando chegou no set do ensaio fotográfico para a capa da edição impressa que você está lendo agora, a paulistana segurava o livro Ninguém pode com Nara Leão, que está sendo adaptado pelo Estúdio Gracinha. Foi simbólico perceber que o momento representava quase uma união de seus próximos passos com o lugar que foi seu ponto de partida. “Desconfio que minha versão adolescente ficaria muito surpresa e orgulhosa dos caminhos que eu estou prestes a trilhar”, garante ela com uma segurança que apenas o tempo foi capaz de lhe dar.

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Manu Gavassi em ensaio exclusivo para a CAPRICHO.
Manu Gavassi em ensaio exclusivo para a CAPRICHO. Bruna Sussekind/CAPRICHO
Os looks

Manu Gavassi veste: blusa da HAIGHT; saia de Sophia Cravo; calça de Petra Sá; sapatos da Miu Miu no acervo Pierrot; anel da Oficina Rubens.

“Aprendi que sei ser eu mesma em qualquer ambiente e que isso é libertador. Soube que o externo não te define, são as suas atitudes”, diz a artista sobre o impacto das experiências que a fizeram amadurecer. Para isso, ela precisou fazer as pazes com o passado. “Tive que fazer um exercício de romper com essa adolescente, com os sonhos dela, para criar novos sonhos e entender que ela sempre vai fazer parte de mim. Por muitos anos, eu prestava conta aos sonhos que tinha quando era adolescente, mas a gente se transforma, e é legal se transformar.”

Ter esse entendimento e reconhecer a própria coragem fez com que Manu embarcasse em novas trajetórias no audiovisual enquanto redescobre sua relação com a música. Mas a maior certeza é que, não importa o formato, ela vai continuar encontrando formas de inovar para fazer o que realmente ama: contar histórias.

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CAPRICHO: Conversando sobre os detalhes desse ensaio, você comentou sobre a aceitação da adolescente que você foi. Como foi a percepção de que você não perdeu essa parte de si?

MANU GAVASSI: Tive que fazer um exercício de romper com essa adolescente e com os sonhos dela para criar novos sonhos. Por muito tempo, sentia que precisava prestar contas àquela versão de mim, mas a gente se transforma, e isso é bonito. Hoje entendo que me identifico mais do que nunca com essa menina porque ela era movida por sonhos. Eu também sou. Só precisei entender que novos sonhos cabem na minha trajetória e que ela sempre vai fazer parte de mim.

Você ocupa um lugar de “amiga” e inspiração pra muita gente que cresceu com você. Você se reconhece nesse lugar?

Eu amo esse lugar até hoje. Para mim, o melhor elogio é uma pessoa dizer que se sente próxima porque percebo que estou conseguindo colocar muito de mim em tudo que faço. Essa sensação de intimidade é verdadeira e, desde o início, foi o que fez eu me sentir muito segura com meu público. Eu me sentia abraçada e não ameaçada com o sucesso que comecei a fazer desde nova. Isso se mantém assim até hoje. Mostra que consigo refletir quem sou e essa sempre foi a intenção. Eu escrevo sobre o que conheço e essa é a minha grande graça. É não ter medo da minha vulnerabilidade e dos meus questionamentos.

Manu Gavassi em ensaio de fotos exclusivo para a CAPRICHO.
Manu Gavassi em ensaio de fotos exclusivo para a CAPRICHO. Bruna Sussekind/CAPRICHO
Os looks

Manu Gavassi veste: top Dagah; corset Dolce Gabanna; saia florida de Paula Rondon; ⁠⁠saia látex de Jonathan de Souza; sapatos de Valentino no Acervo Minha avó tinha.

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Enquanto você explora algo mais autoral na música, a atuação te permite transitar por roteiros originais e adaptações de livros, por exemplo. Qual é o desafio na hora de mergulhar nisso?

Atuar me dá muito prazer. Me sinto muito feliz nos meus projetos autorais, mas também adoro viver outras histórias. Nesse momento, isso conversa diretamente com os livros que estou adaptando. As histórias não são minhas, então preciso entender por que fui atraída por elas. Tem muito a ver com curiosidade e quero ser curiosa para sempre. As pessoas mais interessantes são curiosas porque você nunca sabe tudo. A curiosidade é uma força que te move para lugares diferentes. Meus últimos trabalhos questionavam o amor à música, o meu lugar nesse meio, quando existem tantas outras coisas a serem cumpridas antes da arte. Agora, posso mergulhar em pensamentos que não são meus, mas com os quais me identifico.

Já que estamos falando do tema, o que constrói uma boa história para você?

Nossa, que pergunta boa. O que constrói uma boa história? Vulnerabilidade. É quando você se identifica com o personagem, independente da trajetória que ele tenha. Acho que muita gente tem medo de se mostrar vulnerável e eu entendi uma grande força minha nisso. Quando tenho medo ou estou nervosa, prefiro falar para o mundo do que guardar e fingir, porque fingir me machuca muito. Esse é o ponto em comum de todas as histórias que falamos, tanto as minhas em relação a inseguranças musicais que foram abordadas nos últimos trabalhos, quanto nas histórias que peguei para adaptar. Percebo que a vulnerabilidade é a chave para a identificação e para contar histórias de verdade sobre pessoas de verdade.

Em alguns momentos, você falou sobre um receio de compartilhar determinados projetos. Como foi equilibrar essa sensação com a vontade de falar?

É engraçado porque, hoje em dia, me sinto tão confortável nesse lugar que é quase como se eu nem lembrasse de ter receio disso. Acho que existe um medo no processo criativo. Lembro de sentir muito medo antes de lançar Sexo, Poder e Arte, a música e o clipe. Eu me perguntava se seria compreendida. Não é um papo que eu vejo em muitos lugares e questionar a hipersexualização da figura feminina na música pode facilmente cair em uma coisa careta e conservadora, que está longe de ser o que eu acredito. Sempre caminhei do lado extremo oposto disso. E eu queria muito começar a questionar essas prisões invisíveis que, às vezes, parecem nossas amigas, mas, na verdade, estão tentando destruir a gente. Foi aí que me senti bem vulnerável. Ao mesmo tempo que existe esse período de questionamento, de frio na barriga, também é um lugar em que eu me sinto muito confortável.

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Eu sou movida por sonhos e vontades em tudo que faço.

Manu Gavassi

Existem vários debates justamente sobre esse olhar feminino em produções. Tudo ficava dentro de uma caixinha muito bem definida, mas veio essa quebra de expectativa. Como artista, como é sair um pouco daquilo que é esperado?

Falando da música, que são as últimas produções que fiz, eu saí do gênero amor. Eu contava muitas histórias de amor e de coração partido. Era o que eu conhecia e era o que me movia a escrever. E acho que dei lugar a outros gêneros dentro da música, no sentido de você questionar outras coisas. Pronta para Desagradar, Sexo, Poder e Arte e 31 não são músicas de amor. Sinto essa necessidade de falar sobre outros assuntos. Você amadurece e percebe que não é definida por uma história romântica. Eu tenho um relacionamento extremamente saudável, maravilhoso, somos apaixonados, mas eu não me sinto definida por esse relacionamento. Essa é a maior liberdade porque sempre fomos ensinadas que o grande final feliz é alguém te amar desse jeito. As últimas músicas que fiz não são sobre amor. Elas são sobre a minha relação comigo mesma, com o mundo, com a minha carreira. Isso é maravilhoso e está acontecendo cada vez mais. A gente também vê jovens artistas contando outras histórias. Eu sempre cito a Billie Eilish, que começou muito nova e tem uma maturidade de abordar outros assuntos que é incrível.

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