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Evolução da equidade de gênero não existe sem participação da juventude

O maior evento da ONU destinado a pensar políticas públicas eficazes para um futuro feminino não é tão acolhedor assim.

Por Clara Capiberibe, estudante de ciências ambientais e líder Girl UP Brasil 28 mar 2024, 15h58 | Atualizado em 29 out 2024, 16h02
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Comissão sobre a Situação das Mulheres (CSW) é um evento em que ativistas e pessoas que trabalham com a temática de gênero mergulham nos problemas que ainda precisamos resolver quando o assunto é o futuro de meninas e mulheres. Claro, sempre com um foco específico.

Este ano, o tema desenvolvido foi a erradicação da pobreza e financiamento voltado para a temática de gênero. Ou seja, quais ações estão sendo feitas para erradicar a feminização da pobreza no mundo? Por que, em países mais pobres, são as mulheres que estão nos índices de que ganham menos e sofrem mais com a desigualdade social e econômica?

Em duas semanas de evento, pude vivenciar e absorver muita coisa. A CAPRICHO e a Girl UP Brasil, juntas acompanharam pelo segundo ano a comissão, que é o maior encontro anual da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre igualdade de gênero.

Ou seja, é “só” o evento mundial mais relevante sobre o tema, viu? As decisões tomadas ali podem impactar o nosso futuro em um mundo que ainda precisa ser muito melhor para nós. 

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Eu, Clara Capiberibe – 24 anos, jovem amazônida e estudante de ciências ambientais – escrevo para vocês direto de Nova York, enquanto volto para Tujucu, minha cidade, próxima de Macapá, no Amapá.

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A primeira semana naquele espaço foi bem movimentada. Foi ali que aconteceu o evento de abertura e outros encontros paralelos. Esta é a oportunidade de ouro para quem quer conhecer pessoas que se conectam com seu propósito; em uma mesma sala você pode encontrar de líderes mundiais até colegas ativistas que buscam pela garantia dos nossos direitos. 

E nada como perceber que, mesmo sendo um evento para pensar exclusivamente o presente e o futuro das meninas e mulheres, pude perceber muitas contradições. Começando pelo fato de que a cerimônia de abertura foi conduzida por cinco homens, que facilmente poderiam ser substituídos por mulheres. Por lá, muitas ocuparam um lugar de escuta e não de fala.

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Eu tive a oportunidade de participar dos encontros com a delegação brasileira, trocando com ministérios, secretarias, ativistas e coletivos que atuam no Brasil sobre a temática de gênero nas suas regiões. Mas um ponto que me pegou foi que apesar disto, encontrei poucas brasileiras no espaço oficial da ONU e poucas meninas jovens. Entendendo que este espaço ainda tem muito para acolher essas vozes que são deixadas de lado. 

Como disse a diretora-executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, “antes de ser uma mulher ativista eu fui uma menina ativista e esse espaço também precisa acolher as jovens meninas que estão começando.”

O fórum de juventudes foi realizado fora do espaço oficial, o que demonstra claramente como a juventude é vista: como algo alheio, externo. É uma temática e uma abertura que vamos ter que continuar lutando para conseguir. Conheci meninas tão incríveis, confiantes e revolucionárias que lutaram muito para sair dos seus lares e ocupar esse espaço na conferência buscando fortalecer a luta das juventudes e infelizmente ainda tem pouco apoio e visibilidade dos seus países. 

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Conheci meninas tão incríveis, confiantes e revolucionárias que lutaram muito para sair dos seus lares e ocupar esse espaço na conferência buscando fortalecer a luta das juventudes e infelizmente ainda tem pouco apoio e visibilidade dos seus países. 

Clara Capiberibe, jovem amazônida e estudante de ciências ambientais

É na segunda semana de conferência que acontece a revisão dos termos propostos por cada país. Na reunião do Brasil com a sociedade civil, pude entender o que é um posicionamento dos grupos. São posições, de fato, escritas e enviadas à ONU meses antes de o evento acontecer. Ali, acontece a revisão presencial das propostas e, caso elas não estejam alinhadas com o tema da conferência, são eliminadas. Por exemplo, se o tema do ano é pobreza, tópicos sobre tecnologia são descartados.

Após essa reunião percebi como é importante que o Brasil trabalhe esses pontos em conjunto com a sociedade civil. Eles ganham mais força e ambos os grupos trabalham em conjunto tendo consciência dos processos que virão a seguir. Criar estratégias para um trabalho mais efetivo nas próximas CSW. 

Volto para minha cidade entendendo que é muito importante se movimentar localmente, mas com o pensamento no global. Conheci muitas meninas e mulheres que atuam com muita eficiência em suas localidades, com pouco recurso e são vistas como grandes exemplos a serem seguidos e aplicados em outras comunidades.

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A 68ª sessão da Comissão sobre o Estatuto da Mulher (CSW68) apresentou, no documento oficial, decisões robustas por parte dos Estados-Membros da ONU para reforçar o financiamento e as instituições para erradicar a pobreza das mulheres e das meninas no mundo.

Mundialmente, 10,3% das mulheres vivem hoje em situação de pobreza extrema, conforme o relatório apresentado pelo Secretário-Geral da ONU à Comissão, e o progresso no sentido de acabar com a pobreza precisa de ser 26 vezes mais rápido para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030.

O documento final (ou Conclusões Acordadas) da ONU no evento reconheceu que são necessários mais esforços para aumentar os recursos para resolver a questão.

E vi que a minha participação neste espaço, uma menina da Amazônia, de um estado periférico, que ousa fazer mudanças na sua localidade através das ações coletivas e engajando jovens, tem um grande impacto nos pequenos mundos de pessoas que mudam seu olhar por entrar em contato com novas perspectivas.

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Eu mudei após essa experiência. Eu estive aberta para aprender, trocar e contribuir com todos aqueles que tive a oportunidade de conhecer. Fiquei mais confiante sobre todos os trabalhos que desenvolvo com muito afeto, tempo e qualidade aqui no meu Estado e percebendo e valorizando os impactos super positivos que isso tem causado. 

Agradeço à CAPRICHO e à Girl UP Brasil por acreditarem na minha história e no que eu tenho a compartilhar. Até a próxima. 😉

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