Encontrar alguém legal e namorar hoje está mais difícil do que nunca?
Mesmo sendo mais fácil conhecer gente, por meio de apps de relacionamento, por que está tão difícil se relacionar? É hora de pensar nisso

psicóloga norte-americana e especialista em relacionamentos Logan Ury escreveu, em seu livro Como encontrar seu par*, que “namorar hoje é mais difícil do que nunca”. Talvez se você estiver solteiro(a) por muito tempo possa concordar com ela por experiência própria, ou então ter escutado algo muito semelhante de amigos que não namoram. Mas já parou para pensar por que está tão difícil se relacionar nos tempos atuais?
Comparado a épocas passadas, existe uma liberdade amorosa e sexual muito maior. Se antes os encontros eram arranjados pelos pais ou se resumiam a pessoas do próprio bairro, hoje, a nossa galera pode conhecer contatinhos até de outros países em poucos cliques dentro de um aplicativo de namoro. Isso não deveria facilitar tudo? Pode parecer que é simples, mas não é.
O psicólogo de relacionamentos e neurocientista Thomas Schultz-Wenk concorda que os aplicativos de relacionamento, onde se dão grande parte da paquera entre os jovens atualmente, são grandes facilitadores para você conhecer outras pessoas e trazem possibilidades que o mundo offline não é capaz de proporcionar. O problema, segundo ele, é que muitas possibilidades não são sinônimo de qualidade. “Quanto mais opções temos, mais paralisados ficamos”, diz em entrevista à CAPRICHO.
Essa questão é o que o psicólogo americano Barry Schwartz chamou de paradoxo da escolha*. O conceito defende que quando nos deparamos com muitas opções, ficamos com medo de escolher e de se arrepender por não ter escolhido uma opção melhor. “Então, no aplicativo de relacionamento, quando você está conversando com três pessoas, você sai com uma delas, mas não investe nela, porque sempre fica com a pulga atrás do orelha pensando se as outras não são um pouquinho melhores que essa”, explica Thomas.
Thaís Giuliani, doutora especialista em Geração Z, ressalta o aspecto geracional envolvido nessa questão. Afinal, a forma como nossa galera se relaciona é diferente das gerações anteriores – e a tecnologia e as redes sociais tem muito impacto nisso. “Esta geração vive muito muito no mundo virtual, onde as relações acabam sendo um pouco mais rasas e superficiais, e isso acaba dificultando conexão”, analisa. Somado a isso, existe o fato que os gens Z também têm conceitos diferentes de família: muitos já não tem mais o sonho de casar e de ter filhos, como a juventude tinha antes.
A especialista conta à CAPRICHO que, em sua pesquisa de doutorado, questionou os jovens qual característica eles mais percebem que precisam aprimorar. A principal resposta foi a necessidade de melhorar os relacionamento interpessoais. Ou seja, eles reconheceram que têm essa dificuldade de se relacionar e que existe uma superficialidade nos relacionamentos hoje.
Mas por que essa superficialidade nos relacionamentos é tão confortável?
Thomaz analisa que outro fator que tem uma consequência muito grande nas relações atuais, mediadas pela internet, é a rejeição. Segundo ele, as pessoas não estão mais a acostumadas a serem rejeitadas, principalmente por causa de aplicativo de relacionamento. “Quando você curte uma pessoa e ela não te curte de volta, você não tem uma percepção de que a pessoa te rejeitou, você tem ausência de match. O que não dói tanto comparado com um ‘não’ dito pessoalmente”, diz.
Exemplo disso é a a trend do “icks”, que rolou no TikTok e discutimos aqui na CAPRICHO. Ela consiste em listar pequenas atitudes que as fazem perder a vontade de ficar com uma pessoa. Apesar de soar como brincadeira, ficar apegados a detalhes tão pequenos pode refletir um comportamento preocupante da nossa galera de sabotar relações e evitar que outras pessoas se aproximem. Tudo isso para se autodefender do medo de ser rejeitado e se machucar.
“Acredito que está mais difícil de se relacionar hoje porque as pessoas querem prazer imediato e não levam em consideração que para você entrar num relacionamento precisa de muito trabalho. O primeiro trabalho é você olhar para você e pensar o que busca em uma pessoa”, afirma Thomaz. E completa: “Eu sempre brinco que pra gente encontrar alguém que vale a pena, precisamos passar por dez pessoas que não valem a pena, mas isso também não significa marcar dez encontros para você acelerar esse processo”.
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