Valentina Herszage quer que o mundo conheça a força do cinema brasileiro

A atriz, que interpreta Veroca no filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, conversou com a CH sobre o impacto da produção que rendeu um prêmio ao Brasil.

Por Anny Caroline Guerrera 8 jan 2025, 19h01
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emos um cinema muito forte, esplendoroso. A minha vontade é que o mundo saiba disso“, disse Valentina Herszage em conversa com a CAPRICHO.

A atriz de 26 anos interpreta Veroca em Ainda Estou Aqui, filme nacional dirigido por Walter Salles e que alcançou reconhecimento internacional com a história do livro homônimo em que Marcelo Rubens Paiva narra o impacto da ditadura militar em sua família nos anos 1970.

Estrelada por Fernanda Torres, vencedora do Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz em Drama por sua atuação no longa, a produção lotou salas de cinema ao redor do país.

“Foi um filme que transcendeu barreiras, que levou de fato as pessoas para salas de cinema – algo que estava virando quase vintage, o que é muito desesperador porque a experiência do cinema é única“, dividiu Valentina, que interpreta a filha mais velha de Eunice e Rubens Paiva, político que foi capturado e morto durante a ditadura militar.

A atriz compartilhou que o grande sucesso do projeto também revela um sentimento de pertencimento e identificação dos brasileiros. “Esse filme é de quem fez, mas ele é do Brasil. Tantas pessoas que se identificaram, que tiveram histórias, que perderam entes queridos, não só durante a ditadura militar naquela época, mas hoje em dia a gente vive ditaduras também, né?”, refletiu ela.

O fato do enredo provocar questionamentos importantes sobre o passado e a forma como ele está se refletindo no futuro também foi um ponto essencial: “Para mim, sempre foi a mistura perfeita poder fazer cinema, fazer arte, e, junto disso, levantar questões. Porque o cinema levanta questões.

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Eu acredito que o cinema não dá nenhuma certeza, mas ele faz com que a gente se pergunte.

Valentina Herszage

Para Valentina, filmes como Ainda Estou Aqui trazem as pessoas para a realidade de uma forma que vai além dos livros de história. “Acho que a gente começa a olhar de um jeito que aproxima [as pessoas]. Não afasta como algo que aconteceu e que não se repete mais. Porque a história é muito cíclica, ela se repete. O Brasil é um país que viveu, e vive ainda, muitas violências. O cinema é uma maneira lúdica de fazer com que as pessoas se perguntem mais e tenham mais empatia“, acrescentou.

Herszage também acredita que a arte pode ser um caminho para encontrar respostas e novos direcionamentos por meio de experiências significativas e que dizem muito sobre a história de um país. Entre os relatos que recebeu, a atriz percebeu o quanto as pessoas foram, de alguma forma, tocadas pela narrativa da família.

Eu acho que o que tem sido mais bonito é ver a diversidade de gente que vem falar comigo, de idades diferentes, de mundos diferentes e de trabalhos diferentes. Tem gente acima de 80 anos que vem falar sobre o período da ditadura, que lembra de experiências pessoais e também tem adolescentes vindo conversar comigo.”

Valentina Herszage posando para foto; ela está sentada no chão de mármore e usa um vestido floral
Valentina Herszage Lucas Vianna/Divulgação
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Os detalhes da obra dirigida por Salles constroem uma narrativa que ganha vida nas grandes telas, principalmente, através sentimentos e nas ações de Eunice e seus filhos. A atriz afirma que mais chamou a atenção é o fato de que Walter pensou em cada elemento que compõe a trama, desde o figurino até o texto, de forma que tudo acrescentou perfeitamente ao roteiro sem deixar nada acima das nuances da história da família.

A relação entre cada integrante do núcleo familiar foi construída em “um processo íntimo, pessoal e afetuoso” em que o elenco se uniu fora das telas em uma relação verdadeira. “Acredito que foi muito fora da curva, muito único. Todos nós ficamos muito amigos. Essa sensação de família que vocês veem na tela é verdadeira. Não é uma encenação, ela é verdadeira. A gente sentiu aquilo uns pelos outros.”

Valentina Herszage e Fernanda Torres fazendo crochê no set de Ainda Estou Aqui; a foto está em preto e branco e as duas estão sentadas e concentradas
Valentina Herszage e Fernanda Torres fazendo crochê no set de Ainda Estou Aqui @valentinaherszage/Instagram/Reprodução

O laço entre Valentina e Fernanda, que vivem mãe e filha, começou antes mesmo de Ainda Estou Aqui. As duas participaram da produção da série Fim e, em seguida, fortaleceram a troca com longas gravações e preparações na casa que ambienta grande parte do filme e que também se tornou uma personagem no projeto de Salles. Para manter a concentração entre as cenas, as duas atrizes encontraram um hobby em comum: o crochê.

“É um filme que foi longo, tivemos muito tempo de preparação, muito tempo de filmagem. Foi outra coisa de troca de intimidade, de falar sobre tudo e qualquer coisa e o crochê era uma maneira da gente se manter concentrada. Porque não tinha celular nesse set. Ninguém levava e não fazia o melhor sentido usarmos o celular ali na época. Então, a gente levava o crochê e ficávamos uma do lado da outra, às vezes falando por horas, às vezes não falando nada.

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Leia a entrevista completa com Valentina Herszage:

CAPRICHO: O ano de 2024 foi bem movimentado na sua carreira. Já deu tempo de parar e refletir sobre tudo que aconteceu nessa fase?

Valentina Herszage: Não, ainda estou processando! [risos] Estou curtindo muito. Tem sido muito linda a repercussão dos filmes e as pessoas vindo falar comigo. São pessoas que viram Ainda Estou Aqui, que agora estão vendo Polacas, que viram O Mensageiro. Ainda estou processando e está tudo reverberando muito dentro de mim.

Imagino que são muitas mensagens em que o público destaca o impacto dessas histórias, né? Teve alguma reação que te marcou de uma forma diferente?

São tantas. Eu acho que o que tem sido mais bonito é ver a diversidade de gente que vem falar comigo, de idades diferentes, de mundos diferentes e de trabalhos diferentes. Tem gente acima de 80 anos que vem falar sobre o período da ditadura, que lembra de experiências pessoais e também tem adolescentes vindo conversar comigo. Acredito que tem sido muito nesse sentido, de ver gente no meio artístico que amou e o meu gerente do banco, por exemplo. [risos] Isso tem sido o mais surpreendente.

Eu acho que o que tem sido mais bonito é ver a diversidade de gente que vem falar comigo, de idades diferentes, de mundos diferentes e de trabalhos diferentes.

– Valentina sobre reações do público

Um ponto interessante é que a Veroca fica uma boa parte do tempo fora do país. Você conhece a história, conhece o roteiro e o livro, mas como foi assistir o filme completo com todas as partes se conectando?

Realmente, como tem um bom tempo que eu fico fora, foram filmagens que não acompanhei. Apesar de ter lido o roteiro, quando o filme está pronto é outra experiência. É intraduzível a diferença de ver a coisa toda amarrada, com a trilha, com a cor. Tem todo um trabalho de pós-produção, que é uma equipe gigante fazendo. O que me chamou muita atenção, e eu acho que isso é um crédito da direção do Walter [Salles], ele é um maestro magnífico, é que tudo é impecável. Do figurino até a cenografia. Do elenco até o texto e a fotografia. Mas nada está acima da história, sabe? O Walter tem isso. Em todos os filmes dele, tudo é impecável, tudo é bem feito, mas as coisas não se engolem, elas andam juntas em função de uma trama, em função de uma narrativa. Neste caso, é sobre essa família. Então, quando vi tudo junto, pensei: ‘Caramba, realmente. É um filme muito redondo.’

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Vocês, inclusive, gravaram em Londres. Como foi a experiência?

Foi um sonho! Ainda mais porque passei o meu aniversário filmando com ele lá. Foi uma grande coincidência. Ficamos uns quatro dias em Londres, foi bem rápido e fomos apenas eu e a Luana [Nastas] de elenco. Quando eu soube que ela ia comigo, que ia fazer a amiga da Veroca, mandei uma mensagem me apresentando e falando que meu aniversário seria lá. Ela falou: ‘O meu também.’ Eu disse que o meu era dia 11 de março e ela: ‘O meu também.’ Foi uma coincidência, uma coisa doida, porque nós duas passamos o aniversário filmando com Walter Salles.

A parte ruim disso é que eu voltei no avião pensando assim: ‘Gente ferrou, né? Porque eu nunca mais vou ter um aniversário tão icônico quanto esse. É imbatível ter um aniversário mais incrível do que filmando em Londres com Walter Salles.’ [risos] Foi uma experiência fenomenal, tinha uma equipe de lá também. Também são os anos 1970, então também é Londres nos anos 1970. Foi muito mágico. A gente abriu câmera lá, então, estava todo mundo ainda descobrindo os personagens, como é ia ser… A convivência com Walter também foi a melhor possível. Foi uma viagem muito especial. Essa viagem foi tudo de bom.

Todos nós ficamos muito amigos. Essa sensação de família que vocês veem na tela é verdadeira.

Recentemente, você publicou uma galeria de bastidores com fotos analógicas. Quando você volta para essas recordações, qual é a principal sensação que bate?

Saudade. Muita saudade. Porque realmente foi um processo muito prazeroso e muito alegre do início ao fim. Fizemos a preparação já dentro da casa, né? O que eu acho muito legal porque a casa é uma personagem dessa história. Quando vemos essa casa vazia é uma dor que sentimos. Foi um processo todo muito íntimo, muito pessoal e muito afetuoso. Eu sinto que o Walter tem esse poder, ele sabe valorizar cada ator, independente do tamanho do personagem que ele tenha na história. Acredito que foi muito fora da curva, muito único. Todos nós ficamos muito amigos. Essa sensação de família que vocês veem na tela é verdadeira. Não é uma encenação, ela é verdadeira. A gente sentiu aquilo uns pelos outros. Então, acho que é saudade mesmo. É um processo que eu viveria mil vezes de novo.

Você e a Fernanda tinham o costume de fazer crochê juntas e construíram um laço também fora das telas. Como foi a construção dessa relação?

Eu conheci a Fernanda não tinha tanto tempo porque eu fiz a série dela, Fim. Na verdade, conheci a Fernanda lançando a série da Hebe Camargo, que eu fiz com a Andrea Beltrão. Elas são grandes amigas e a Fernanda chegou a assistir a série da Hebe e, através disso, ela me convidou para fazer Fim. Eu já tive uma troca com ela ali porque era uma personagem escrita por ela. No dia em que filmamos as sequências do hospital, ela estava junto com a Daniela Thomas e o Andrucha Waddington, então, já tivemos uma troca. Mas com certeza foi diferente dessa troca de agora do filme, de mãe e filha. É um filme que foi longo, tivemos muito tempo de preparação, muito tempo de filmagem. Foi outra coisa de troca de intimidade, de falar sobre tudo e qualquer coisa e o crochê era uma maneira da gente se manter concentrada. Porque não tinha celular nesse set. Ninguém levava e não fazia o melhor sentido usarmos o celular ali na época. Então, a gente levava o crochê e ficávamos uma do lado da outra, às vezes falando por horas, às vezes não falando nada.

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Valentina Herszage posando para foto; ela está abaixada na frente de uma escada sorrindo levemente e usa um vestido floral
Valentina Herszage Lucas Vianna/Divulgação

O filme conquistou um grande destaque internacional e os brasileiros dominaram as redes sociais com um orgulho e uma torcida muito grande.

O brasileiro é o melhor torcedor do mundo! [risos] Não tem ninguém melhor do que o brasileiro para torcer. A gente chega muito junto. O brasileiro zerou o Instagram do The Academy outro dia e eu fiquei o dia inteiro rindo com isso.

Exatamente! Qual é a sua visão desse movimento que mostra o grande impacto do filme?

Realmente foi um filme que transcendeu barreiras, que levou de fato as pessoas para salas de cinema – algo que estava virando quase vintage, o que é muito desesperador porque a experiência do cinema é única. Hoje em dia, a gente vai assistir algo em casa e invariavelmente vai pegar o celular, vai dar pause, a gente vai, às vezes, terminar não sei quantos dias depois e não tenho nada contra isso. Claro que, às vezes, eventualmente, faz sentido, mas ir para a sala do cinema e jogar sua concentração naquilo por duas horas é tão importante, é tão mais mágico, sabe? Acho que a gente tem perdido um pouco essa capacidade de prestar atenção nas coisas por muito tempo. Acho que a rede social vai limitando a nossa atenção a um minuto, um minuto e meio.

Sobre levar o filme para fora, é tão importante porque temos um cinema muito forte, esplendoroso, então, a minha vontade é que o mundo saiba disso, que as pessoas queiram assistir histórias brasileiras, que a gente também ocupe nosso espaço. Eu acho que o povo brasileiro ver esse reconhecimento lá fora traz mais um impulso de: ‘Então, eu vou ver. Eu vou prestigiar porque o cinema também é meu.’ Esse filme é de quem fez, mas ele é do Brasil. Tantas pessoas que se identificaram, que tiveram histórias, que perderam entes queridos, não só durante a ditadura militar naquela época, mas hoje em dia a gente vive ditaduras também, né? Então, foi muito lindo estar em Veneza com o filme e ver a repercussão incrível.

Temos um cinema muito forte, esplendoroso, então, a minha vontade é que o mundo saiba disso, que as pessoas queiram assistir histórias brasileiras, que a gente também ocupe nosso espaço.

Valentina Herszage

As personagens que você entregou em 2024 foram densas e destacaram assuntos que são importantes de serem lembrados, como a ditadura. Como foi trazer essas reflexões através do cinema?

Tem sido um sonho. Para mim, sempre foi a mistura perfeita poder fazer cinema, fazer arte e, junto disso, levantar questões. Porque o cinema levanta questões. Eu acredito que ele não dá nenhuma certeza, mas ele faz com que a gente se pergunte. Ele faz com que a gente olhe para o lado e pergunte, se identifique e personalize as narrativas. Acho que, principalmente o cinema mais histórico, que eu tenho feito bastante, tira a coisa da história lá atrás. “Ah, porque no tempo da ditadura… As vítimas da ditadura… As famílias das vítimas…” E aí a gente chega no cinema e fala assim: “Mas quem eram essas pessoas? Como eram essas famílias? Por que essas pessoas passaram por isso? Quem fez isso?” Acho que a gente começa a olhar de um jeito que aproxima. Não afasta como algo que aconteceu e que não se repete mais. Porque a história é muito cíclica, ela se repete. O Brasil é um país que viveu e vive ainda, pelo amor de Deus, muitas violências. Então, deixarmos elas escaparem assim… O cinema é uma maneira lúdica de fazer com que as pessoas se perguntem mais e tenham mais empatia.

E muita gente assistiu mais de uma vez com perspectivas diferentes.

É bom assistir mais de uma vez. Eu vi muita gente assistindo também, porque quando você vê a primeira vez é uma catarse, é uma coisa… E depois você consegue respirar e ver com outros olhos, né?

Valentina Herszage no Festival Internacional de Cinema de Veneza; ela está posando para foto no tapete vermelho com uma roupa na cor preta enquanto sorri levemente
Valentina Herszage no Festival Internacional de Cinema de Veneza Franco Origlia/Getty Images

Durante as divulgações de Ainda Estou Aqui, os seus visuais também traziam uma forma de expressão. Qual é a sua relação com a moda nesse sentido?

Eu sempre fui louca por moda. Sempre fui louca por todo o tipo de expressão artística. Acho que temos artistas muito maravilhosos aqui no Brasil e quando eu soube que ia pro festival de Veneza, eu liguei para Rita Lazzarotti, que é stylist, uma mulher maravilhosa, uma profissional incrível, com um olhar muito certeiro, e começamos a trocar muita ideia da imagem que eu gostaria de passar, das coisas que eu gosto, das minhas referências e tudo mais. Chegamos à conclusão de que seria muito lindo poder usar um estilista brasileiro no festival de Veneza por estarmos levando um filme aqui do Brasil. Uma história autenticamente brasileira. Conversamos com o Alexandre Herchcovitch, explicamos mais ou menos o que queríamos, ele embarcou 100% e fez aquele look maravilhoso. Aliás, ele fez o da Fernanda também, fizemos essa dupla de Alexandre.

Eu realmente acho que cinema e moda conversam muito, sabe? Porque o cinema vai atravessando a história assim como a moda. As tendências vão mudando, o jeito das pessoas se vestirem vai mudando, acredito que faz muito sentido. E, claro, dentro desse filme, que não deixa de ser um drama familiar e baseado em fatos históricos, um filme em que temos muito respeito pelo que fizemos e pela família Paiva também. Acho que tinha um dress code ali, de ninguém destoar, porque não tem a ver com a história que estamos contando. Acredito que esse look foi realmente um golaço. Eu falo pra Alexandre que foi uma das roupas que eu mais amei usar, com certeza.

Agora, quais são seus projetos para o futuro?

Estou gravando um filme da Globo chamado Coisa de Novela. É um longa em homenagem aos 60 anos da Rede Globo, comigo e Susana Vieira. Estou apaixonada pela Susana. Estamos fazendo uma dupla muito boa, é um filme muito lindo, um filme dedicado ao público de novelas – que é quase o Brasil inteiro. As novelas são um patrimônio cultural nosso. Eu adoro fazer TV também e achei engraçada essa junção. É um filme sobre novela. Tem a ver com o cinema, que faz parte da minha vida desde sempre, e a TV que é uma coisa que eu cultuo, que eu gosto, que eu assisto. E tem um outro filme que eu também fiz uma participação especial, tem uma cena incrível, que é o A Batalha da Rua Maria Antônia. Se passa durante a ditadura militar, da Vera Egito, uma diretora maravilhosa. Então, acho que temos alguns lançamentos e vamos ver o que mais!

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